Educação
sexual e liberdade de escolha da escola
Francisco Vieira e Sousa
A
questão
da educação sexual nas escolas tem
gerado intensa polémica, sendo um
daqueles assuntos em que jamais todos os
pais comungarão da mesma opinião.
Significa isso que a educação sexual
deveria ser retirada do currículo
escolar? Dificilmente resolveríamos a
questão de fundo. Num futuro mais ou
menos próximo, uma nova questão surgiria
a chamar a atenção para outras matérias
do currículo nacional e para a forma
como através do seu ensino são
veiculados valores, posições éticas e
morais ou simples formas de estar na
vida, sobre as quais jamais haverá
consenso.
O problema de fundo é que existe quem se
arrogue a capacidade e o direito de
impor aos outros a sua visão do que é a
sexualidade e de como ela deve ser
ensinada. Sendo certo que não é possível
abordar temas como o amor, o sexo ou a
sexualidade sem partir de uma grelha de
valores, que configure, implícita ou
explicitamente, uma matriz de
pensamento, estamos perante uma
flagrante violação do artigo 43º da
Constituição da República, que proíbe ao
Estado programar a educação "segundo
quaisquer directrizes filosóficas,
estéticas, políticas, ideológicas ou
religiosas".
Esta violação existe porque há ainda
quem acredite na denominada "escola
neutra", ou seja, aquela escola que
pretensamente ensina sem transmitir
valores ou, por oposta, ensina que todos
os valores e correntes de pensamento são
igualmente verdadeiros e falsos, pelo
que nenhuns devem ser apresentados como
referência. "Neutra", despida de
referências, a escola tornou-se numa
"bússola sem agulha de orientação", onde
os próprios professores se encontram
desorientados e, por consequência,
desrespeitados e desprestigiados. Com
efeito, perante a notícia vinda a
público, defender a "escola neutra"
significa uma de duas coisas, se não
mesmo duas coisas ao mesmo tempo: (1)
má-fé por parte de quem, tendo uma clara
directriz filosófica, ideológica ou
religiosa, a pretende impor a coberto
dessa suposta neutralidade; (2) demissão
ou omissão, de todos nós, pais, que
enviamos as nossas crianças para a
escola e abdicamos da obrigação de
escolhermos professores que sejam
coerentes connosco na educação deles.
É também o falso conceito de "escola
neutra" que determina que sejam
aprovados projectos de escola que valem
para tudo e o seu contrário, cheios de
frases feitas mas que não são claros
sobre os valores a transmitir e impedem
a criação de uma identidade comum aos
membros da comunidade escolar. Aliás,
como poderia a escola ter identidade, se
lhe é exigido que seja "neutra", isto é,
"sem identidade"?
A solução para esta apatia, que apenas
favorece quem pela calada pretende
direccionar o ensino, encontra-se no
número um do mesmo artigo 43º da
Constituição, onde se afirma que "é
garantida a liberdade de aprender e
ensinar". Ora a liberdade de aprender,
na sua forma mais simples, não é mais do
que a possibilidade de escolher a escola
onde se pretende estudar, ou onde se
pretende que os nossos filhos estudem. A
liberdade de ensinar é, na sua forma
mais simples, a possibilidade de cada
escola definir o seu projecto educativo,
sendo depois avaliada pelos seus
resultados.
Infelizmente, os pais não podem escolher
a escola de seus filhos, estando
condicionados por critérios de zona de
habitação ou emprego. E mesmo que
pudessem, de pouco lhes serviria, porque
os professores não têm liberdade para
definir claramente, em conjunto com o
restante corpo docente, e sujeito à
aprovação do conselho escolar, um
projecto educativo claro, que resulte de
uma matriz de valores comum à comunidade
escolar. E assim continuará a ser
enquanto a autonomia das escolas não for
uma realidade, e a celebração de
contratos de autonomia entre as
direcções regionais de Educação e os
estabelecimentos de ensino, tal como
previsto na legislação desde 1998, não
for uma prioridade do Ministério da
Educação.
Só quando os professores puderem ensinar
em escolas autónomas e diferenciáveis
pelos seus projectos educativos e os
pais livres de escolherem entre elas é
que poderá existir sintonia entre as
escolas e as famílias. Enquanto assim
não for, alguém, no seu gabinete, decide
por todos o que se ensina e como se
ensina nas escolas de todo o país.
Enquanto assim não for o artigo 43º da
Constituição não estará a ser cumprido.
Membro do Fórum para a Liberdade de
Educação