Trata-se, como é óbvio, de
uma questão extremamente delicada. No que diz
respeito à educação sexual, é díficil encontrar
o tom justo. Mais do que em relação a quaisquer
outras matérias, a questão daqueles que ensinam
é decisiva. A relação pessoal é sempre
importante, mas, quando nos ocupamos de educação
sexual, é imprescindível uma relação de
confiança. Algo próximo do que os psicanalistas
chamam uma relação transferencial: é necessário
que o aluno veja no professor aquele que é
suposto saber, e que, por maior que seja o
número de informações que transmite, nunca
chegará a dizer o que sabe por inteiro - ficará
sempre um resto que tem que ver com a sabedoria
da vida. Nas actuais condições do ensino, não é
fácil criar este tipo de relações - até porque o
número da alunos cria uma atmosfera propícia ao
desatino, à troça, ao riso boçal, à insinuação
torpe.
Neste plano, há várias sugestões de Daniel
Sampaio que parecem acertadas. A primeira visa
envolver a educação sexual numa área curricular
de Educação para a Saúde, abandonando o projecto
utópico de uma dispersão por diversas
disciplinas, conforme a combinatória que em cada
escola se define.
A educação sexual provoca, como todas as
conversas sobre as matérias amorosas, um riso
nervoso. É sinal de que se toca em motivações
íntimas e que toda a cautela é indispensável.
Mas há os casos de ignorância de informações
essenciais, com consequências por vezes
desastrosas, principalmente no domínio da
gravidez inoportuna. Parece evidente que uma
preparação para os afectos em geral faz parte de
uma disciplina que tenha em conta o equilíbrio
psicológico, mas aqui também a literatura ou o
cinema são certamente um instrumento
extraordinário.
Embora o Expresso publique um desmentido formal
do Ministério da Educação, explicando que não há
programa oficial e não existem manuais, que "as
estratégias e imagens publicadas que o Expresso
fez passar não pertencem a materiais do
Ministério da Educação", Henrique Monteiro e o
editorial do jornal funcionam como se tais
esclarecimentos não existissem. Henrique
Monteiro proclama que se trata de "um escândalo"
e vê nisto "um ataque às crianças". Suspeita-se
que para Henrique Monteiro tudo o que seja
informação sexual é um atentado à infância e
adolescência. Ele parece ter uma fruição
libidinal no acto de se indignar. Utilizando
gravuras que pertencem a um manual espanhol
mencionado na bibliografia de um guia intitulado
Educação Sexual na Escola, o Expresso explora a
indignação fácil e o conservadorismo mental e
moral.
Registe-se o editorial a que se chama A idade da
inocência. O que nos espanta é que se conceba um
paraíso dos afectos juvenis e infantis sem
qualquer sexualidade. Verifica-se que Freud e a
psicanálise não passaram por aqui. Mas já
conviveram com adolescentes? Já ouviram as
conversas de adolescentes? Talvez pudessem
concluir que, se todos os afectos têm
componentes sexuais, há uma sexualidade que
existe separada da relação amorosa - como se
sabe desde o princípio do mundo. Procurar que
essa sexualidade seja vivida a dois é algo de
positivo, mas nem sempre inteiramente
realizável. Basta ver o que se passa em
concertos ou discotecas portuguesas. Culpa do
relativismo. Claro, que tem ideias curtas e
costas largas... Professor universitário