Toquem sirenes e
repiquem sinos a rebate
D. Antonio Marcelino
Quando
há cerca de trinta anos, ainda na euforia de uma revolução
mal digerida, a obsessão de nacionalizar tudo chegava a
querer nacionalizar também as pessoas, uma assembleia, a
nível nacional, de pais de alunos das escolas do Estado,
cresceu ao rubro e gritou aos responsáveis da política e do
ministério: “Os nosso filhos não são cobaias. Basta. Os pais
somos nós, não é o Estado!” O grito de revolta e de
indignação fez tremer aqueles a quem se dirigia e as
decisões, já anunciadas, pararam por ali.
A tendência estatizante no ensino não terminou, porque a
semente ficou lá dentro de casa, ora calada, ora assomando
no terreno, como que a experimentar se já pode avançar e
impor-se, criando situações de facto, mais ou menos
irreversíveis. Vemo-lo todos os dias e, agora, de modo mais
concreto e assumido, com a protecção de forças que dão a
cara e que, parecendo exteriores, germinaram dentro de um
sistema que lhes é familiar.
Caiu-me, ontem mesmo, debaixo dos olhos o relato de uma
intervenção do membro mais responsável da Confederação das
Associações de Pais (Confap), que dizia, em entrevista a um
canal de televisão: “ Temos de assumir, entre todos nós, que
os filhos são biologicamente nossos, mas socialmente de toda
a comunidade”. Assim parece querer defender que compete, sem
mais, ao Estado definir o “modelo educativo” para os
cidadãos. Aos pais restará apenas o papel de serem
“produtores de crianças”. Uma tal opinião, bem pouco lúcida,
contradiz, não apenas o bom senso, porque ninguém pode tirar
aos pais o direito de educarem os filhos que geraram, mas,
também, a Declaração dos Direitos do Homem e da Criança e,
para não ir mais longe, contradiz a nossa própria
Constituição.
Que o Estado vele pelo currículo escolar, bem pensado e
definido, e o torne paradigma obrigatório para o conjunto da
população e para o reconhecimento oficial de competências,
está certo, contanto que não asfixie, mas favoreça, a mais
séria capacidade inovadora de pessoas, grupos e
instituições, testada no seu valor presente e futuro.
Definir, porém, um “ modelo educativo” único e sem apelo,
impô-lo aos educandos, aos pais e aos cidadãos em geral, é
um abuso que se deve denunciar, sem meias palavras.
O Estado nunca foi nem pode ser um bom educador, porque não
tem coração; e não há educação sem afecto. Lamentavelmente,
muitos a quem se paga para educar, estão eles próprios
ressequidos de amor e de afecto e muitos políticos, dos mais
responsáveis a todos os níveis, dão, no seu dia a dia, um
péssimo exemplo ao país pela sua linguagem, gestos,
sentimentos e atitudes, mormente quando se referem aos seus
adversários. O teimar em fechar as portas a quem tem o
direito de as ter abertas para uma participação pessoal e
responsável, denuncia fraqueza do sistema e medo de
concorrência. O Estado, enquanto tiver a sua razão apenas na
força do poder, não construirá nunca uma comunidade de
pessoas livres.
A nacionalização das crianças em Moçambique, enviadas depois
para Cuba e para o leste comunista, foi uma experiência
infeliz e dolorosa, que deixou feridas que ainda não
sararam. A estatização é uma bola de neve que não pára, se
não é desfeita a tempo.
A preocupação é maior ao vermos quem tem obrigação de
incarnar e defender os direitos dos pais e ajudá-los a
capacitarem-se para um missão que não se aliena, reduzir
estes a meros reprodutores de crianças. Só falta a
recomendação de gerarem poucas, porque os tempos vão maus e
o “deficit” não permite desperdícios…
Toquem sirenes e repiquem sinos a rebate. É preciso que os
pais acordem, vejam o que se está passando e gritem, de
novo, que os seus filhos não são cobaias.